sexta-feira, 25 de julho de 2014

o que a gente faz daquela angústia

  Tem coisas que a gente não consegue só assistir. Cada um vive do jeito que acha melhor, e provavelmente o certo seria aceitar isso e viver do seu próprio jeito. O problema é que, num relacionamento, a gente acaba achando que a vida do outro é nossa também. 
 Você sempre achou que eu vivia errado. A gente achou que podia arrumar um ao outro. Eu achei que te faria tão feliz que você nunca mais precisaria tomar um monte de remédios pra não ficar triste. Eu achei que você ficaria tão forte que nunca mais colocaria um cigarro na boca. Você achou que preencheria meu coração de uma maneira tão plena que eu nunca me interessaria por mais ninguém. Achou que a partir dali eu dançaria só pra você, na sua cama, no seu chuveiro, no seu mundo cinematográfico. Eu queria salvar sua saúde física e mental. Você queria salvar minha integridade, minha dignidade, a pessoa de bem que devia existir em algum lugar dentro de mim. 
 O problema é que nenhum dos dois chegou a lugar algum. E assim, não conseguindo realizar nossos projetos pessoais nem-tão-pessoais-assim, fomos ficando cada vez mais frustrados um com o outro, com nós mesmos e com o nosso amor que poxa, como assim, não era grande o suficiente pra mover montanhas e essa merda toda. 
 Eu não sei de nada que tô falando, mas agora, tentando olhar tudo de longe, a minha impressão é que a gente perdeu tempo demais tentando mudar o que não precisava ser mudado, mas aceito. Eu deveria parar de pensar em como você vai ficar daqui a algum tempo se não parar com o cigarro e com as porcarias, em todas as possíveis idas ao hospital e todo o arrependimento que você vai sentir e o ódio com que vai ter que conviver por não conseguir nunca parar de viver do que te faz mal. E em como eu teria de aceitar isso um dia, afinal. Foi exatamente por achar que eu nunca vou conseguir aceitar te ver fazendo mal a si mesmo que eu resolvi desistir. Sabe como é, deixar partir o que você percebe que não consegue mudar. E o pior de tudo é que eu sei que tudo o que eu sou (ou boa parte do que eu faço) também te faz mal, mas não consigo mudar por você assim como você não o faz por mim. Você me conheceu sendo quem eu sou e não há nada que possa fazer além de me aceitar e me amar. Mas me amar te dói. E já que eu não pude mudar e nem tirar de você uma das coisas que te faz mal, que seja eu um dos vícios ao qual você vai superar aos poucos. Sabe, pelo menos acabando com tudo eu acho que diminuo um pouco da sua dor, mesmo que a recuperação não seja imediata.
  Espero que a gente ainda possa fazer bem um ao outro, cada um sendo seu próprio guardião. Que eu possa amar você de longe, pensando só em te dar meu amor mais bonito e não em todo o resto. 

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