sexta-feira, 6 de junho de 2014

 me fechei pra você
 e tô tentando me abrir pro resto do mundo
 em vão

 Que droga, você me mudou pra caralho. Calou a doida que tinha dentro de mim. Agora, que tô vazia, bem que eu queria que a doida voltasse. A doida me fazia esquecer do vazio. Sexo casual não me deixava conhecer o vazio de verdade. A música, as pistas, a bebida: faziam muito por mim. Nada pela minha alma. Aí você veio, assim, cheio de vazio. E nossos dois vazios tentaram se preencher.
 É estranho pensar nos nossos vazios. Seu vazio é o do adeus, aquele adeus que veio antes do meu. O seu vazio é o de um monte de adeus junto. Você é tanta coisa pra mim. É acordar pelada na cama macia e pensar em como é bom o amor. É te dar as costas nessa mesma cama e querer ir embora. É sol entrando pelas frestas da porta da varanda, é sucrilhos com leite na mesa pequena. É cigarro que queima dentro de você e mais ainda dentro de mim. É te ouvir tocar piano ao acordar. Ah, esse dia. Tudo que você queria fingir ser.
  Eu tenho uma curiosidade enorme de saber essas coisas: o que eu sou pra ti. Será que você acha que a doida é tudo que eu queria fingir ser e quem eu sou agora é tudo que eu sou? Já fui tantas com você. Qual a que mais te dói?
 E tem o meu vazio. É estranho, parece que o meu chegou atrasado. Uma vez eu fui até a puta que pariu pra transar com um cara que não tinha nada além de "bom" papo. Ele morava sozinho, tinha um filho e uma namorada. A gente transou, tomou sorvete, assistiu Clube da Luta e eu dormi na barriga dele. Ele ficou puto demais que eu dormi no meio do filme preferido dele, aí a gente transou de novo e dormiu de verdade. Não tinha um pingo de amor ali. Essas coisas a gente percebe quando acorda, né. A gente acordou e eu cai fora o mais rápido possível. Não teve mão dada na rua nem nada do tipo. Era a última coisa que eu queria e ele também. Hoje, quando ele me chama pra "sair", eu só consigo pensar em como é ruim acordar do lado de alguém por quem a gente não tem um pingo de amor. É só isso que eu penso sempre que algum cara me chama pra sair: "Porra, mas e quando eu acordar do lado dele, que que a gente vai fazer?". Essa sou eu sem a doida, depois de você. Porque isso era tudo que a doida mais fazia: sair com um monte de caras, sem dar a mínima pra como seria no dia seguinte.

 Eu só queria que todos os dias fossem você tocando piano pra mim ao acordar.

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