domingo é dia de voltar pra casa, trocar os lençóis, baixar os textos da semana e pensar na saudade dos meus pais que acabaram de ir embora
segunda é dia de ler deleuze e entender menos as máquinas de guerra e ver o professor divagando sobre o nada
terça é dia de não ler aristóteles e maquiavel
quarta é dia de socializar e reparar na coluna reta e no penteado bagunçado e elegante da professora mais inteligente do mundo (que ainda por cima entende de moda)
quinta é dia de ler sobre índios e ouvir as histórias da professora sobre índios
sexta é dia de ter atividade em grupo na aula e aproveitar pra chegar mais pertinho do amor
sábado é dia de passar horas no intermunicipal até finalmente voltar pros braços dos meus pais e matar saudade do sofá e da tv a cabo e da geladeira cheia de comida e do wi-fi que funciona de verdade
domingo é dia de voltar
e no meio disso
acabar um tcc
visualizar as mensagens e não esquecer de responde-las
organizar uma mudança de apartamento
ler contratos
driblar burocracias
mandar e-mails
achar o emprego perfeito
lembrar do dinheiro que sempre falta
lembrar da conta do banco zerada
brigar com a menina que não lava a louça
lavar a louça que a menina não lava
olhar pro chão sujo do box do banheiro
olhar pro chão cheio de cabelo da casa inteira
passar pelos mendigos do brás
ignorar o cheiro de xixi da cidade
entrar no metrô onde ninguém mais cabe
carregar o bilhete do metrô e pensar no dinheiro que sempre falta
passar pela lanchonete e querer milk-shake de açaí (nunca comprar)
lembrar de não te esquecer
e de ser
feliz
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